terça-feira, 1 de junho de 2010

Sonhei






Sonhei que estava num hospital, deitada na maca, era o dia do parto. Eu sentia muita dor, e minha barriga estava enorme. Então eu sentia alguma coisa se mexendo dentro de mim e como se fosse a coisa mais fácil do mundo ele nascia. Antes que eu pudesse ver o seu corpinho, ou o seu rosto, eu desmaiei. De repente eu estava na cama da minha mãe, mas onde está ele? Onde está o bebê? Estava no hospital, já havia se passado 4 dias desde seu nascimento.
Fui buscá-lo e entregaram no meu braço um pacotinho azul, era a coisa mais linda que eu já tinha visto, se parecia comigo, tinha o cabelo da cor do meu e os cílios longos.
Eu o vi e já o amava mais que tudo que eu poderia imaginar, de um jeito que doía...
Voltei para a casa, todos me perguntavam do pai, eu falei que não sabia. Mentira, é claro que eu sabia.
Eu não conseguia parar de olhar pra ele. Eu senti até mesmo meu peito pingar um pouco de leite no momento em que ele chorava de fome. Meu Deus, eu senti o leite saindo meu seio esquerdo!
Fiquei oilhando para ele enquanto amamentava, pensava no nome. Pensei se perguntaria ao pai o melhor nome, refleti, é melhor que ele não soubesse do bebê.
Olhei aqueles olhos tão expressivos do meu bebê, eu falei Miguel, e ele sorriu...

Então o despertador tocou, 06:40 da manhã, tenho que trabalhar.
Fiquei sentada no trem pensando que se Freud estivesse vivo eu ia me consultar com ele!

ps: não estou grávida!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Intermédio

“Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.”







Sempre que eu passo pelo metrô Paraíso ou pelo Clínicas eu vejo esse mesmo poema... Não posso deixar de me identificar com ele, é como se representasse essa nova fase da minha vida. Eu me sinto qualquer coisa de intermédio.

Semana passada, na quarta-feira, duas coisas importantes aconteceram no meu dia, duas reuniões de grupo com os meninos que são orientados por esse Núcleo de Proteção Psicossocial Especial e a reunião mensal do grupo de estudos do qual faço parte na USP (Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos). Esse dia eu me senti o mais intermédio possível.

Eu não estou no mesmo mundo desses meninos de quem cuidamos, todos tem passagem pela Fundação Casa, cumprem Liberdade Assistida ou Prestação de Serviços à Comunidade. Todos que estavam nos grupos da quarta-feira são negros, todos moradores de periferias da Zona Sul de São Paulo. Todos com famílias desestabilizadas, todos sem perspectiva, todos vivendo à margem de tudo na vida, e a maioria deles viverá pra sempre assim. Quase ninguém falava no grupo, eles não tem uma boa cognição, quase todos são praticamente analfabetos, e de uma maneira pior que os tais analfabetos funcionais. Muitos vão morrer antes dos 30, ou antes dos 40, ou vão passar grande parte da vida presos. E não há muito o que fazer, são excluídos por todos os setores, educação, tratamentos...

Depois desses grupos que aconteceram pela tarde eu fui pra reunião discutir um texto de um mega pensador, como sempre o fazemos. Quando eu cheguei lá também não me senti pertencendo àquele lugar. Todos brancos, a maioria já na pós-graduação da melhor faculdade do país. Pessoas que falam pelos cotovelos, que atropelam a fala do outro, que falam como se escrevessem, quase uma outra língua comparando com os meninos que oriento. A academia nunca entenderia esses meninos. Todas as pessoas ali sentadas são de classe média, alguns vão pro México a passeio, outros ficam o dia todo lendo e lendo... Eu também não sou uma dessas pessoas.

Eu sou mesmo pilar da ponte de tédio. Perdida entre dois mundos completamente diferentes, sem saber ao certo o que fazer quando estou em cada um desses mundos. Sem saber bem pra onde ir, o que fazer ou o que falar. Mas o pior é que não posso, de alguma forma, ser bem aceita por qualquer um desses dois mundo, pois eu não sou um nem sou o outro...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mineira X Paulistas





A velha rixa de mineiro e paulistas... Ô vida essa viu, depois de quatro anos morando no interior de São Paulo, onde as pessoas já quase não entendiam o espírito do bom caipira e juravam que interior de São Paulo de Minas é tudo igual, vim parar nessa cidade “por conta das circunstâncias”.

Que difícil, é só eu abrir a boca e dizer qualquer palavra que demonstrem todo o meu sotaque pra esses malditos pensarem, coitadinha que burrinha, ou então que eu sou uma mineira inocente!
Ai jisuis, se essa palavra inocência me pertencesse!
Tem um certo moço que trabalha comigo que tem um desdém para com minha pessoa, que eu vou te contar! Nunca vi alguém achar que eu sou tão burra assim, mas deixa, deixa ele achar que eu sou tapada mesmo. O pior é: o bom mineiro jamais se importa, continua no falar manso, e de jeitinho em jeitinho vai terminando tudo que começou e tapando a boca dos mardito paulista, e pior: paulistanos!

Outra coisa, os moço que querem me “namorar” tudo acham que eu sou moça besta, que sou moça burra, e que sou moça que quer casar. Ai vida, como é difícil ser mineira na capitar...

Pois vocês acreditam que um dia desses um paulista duma figa (do interior também o coitado) disse que eu deveria disfarçar meu sotaque nas entrevistas de emprego... Onde já se viu! Faz parte da minha identidade UAI!

Eu mereço, só por que eu sou mineira e bonita, como conseqüência tenho que ser burra e ingênua, e pior: fraca!

Agora, deixa eu contá uma coisa procêis: eu sou é muito forte viu, quase ninguém com a minha idade já viveu o que eu vivi, sabe o que eu sei, e tem a coragem que enfrentar esse mundão de meus Deus, como eu tenho, com a mãe no peito dizendo "vem que eu dô conta".

E outra coisa caros leitores, se alguma vez eu lhes pareci fraca pelas coisas que aqui escrevi, sinto muito, foi de propósito mesmo. Assim como cada coisa doida que eu faço é calculada! E “Sigam-me os bons!”

E quer saber povo, eu sou exatamente o que está aqui, todos esses textos desse blog, as vezes eu me arrependo de ser, e as vezes fujo disso, mas sou.

E sou mesmo mineira viu, mas num sou besta não! Uai sô!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Da poltrona





Sentada na minha poltrona, com meus livros e meus pensamentos, eu tentava encarar o frio daqueles dias. Com as atitudes rotineiras e o trabalho de cada dia que me consumia, tudo que eu queria naquela noite era continuar meu velho romance tcheco, aquele mesmo que sempre começo a folhear e nunca termino.
Não passava de mais uma noite dentre as quais fechei as portas e janelas para que nenhum som, ou qualquer daqueles ventos assombrosos adentrassem a pequena sala na qual eu me escondia. Eu escutava conversas lá fora, uma música qualquer que definitivamente não era do meu gosto, e tentava me concentrar só no meu infinito livro de 300 páginas.
Mas o edredom não estava conseguindo me esquentar, na verdade nesse tempo de hoje conseguiria essa proeza, o frio vinha de dentro de mim, mesmo com meu medo obsessivo dele.
Como de costume me levantei do meu sossego pra procurar leite na geladeira, não tinha... "Da cerveja você nunca esquece né!?" praguejei voltada pro vidro da janela. Resolvi fazer um café, mesmo sabendo que ele só pioraria minha insónia...

Voltei com o café pra poltrona e pra baixo do meu edredom gelado, e então a porta começou a bater. "Não acredito que deixei a porta aberta!!!". Levantei-me depressa pra impedir que qualquer vento congelante entrasse. E foi quando eu chegava perto da porta que eu senti, vinha algo quente, muito quente. Com tanto medo fui fechando depressa a porta, mas antes que eu pudesse trancá-la aquele ar quente, que tinha até cor, me tomou. Nunca senti tanto calor na minha vida!
E aquele raio infeliz de calor tropical não ia embora! Inferno...
E a noite passou, eu não dormi com tanto calor, eu suava, e virava pro lado, liguei o ventilador e nada, abri a janela e nada. Pra piorar todas aquelas influências das quais eu me mantinha afastada fechando a janela começaram a entrar. Ficou pior...

Mas logo pela manha eu comecei a pensar que não era tão ruim assim, talvez até houvesse sol no outro dia! E afinal de contas eu estava mesmo sentindo frio demais... Foi aí que percebi que o frio de dentro havia passado. Foi aí que eu vi que estava aproveitando os 40° tropicais. Foi aí que dali a pouco eu estava tomando margueritas e deixando meu livro e edredom de lado. Estranho. Abri a guarda.

E então numa infeliz noite daquelas eu acordei. Estava em baixo do meu edredom, ainda sentada na minha poltrona, com a mesma página eterna do livro aberta. O porta batia outra vez. "Mas que infelicidade essa merda de porta!". Levantei com mais frio do que nunca, ia fechar a porta, mas vinha um ventinho tão frio de lá de fora... Reinava o silêncio.
Agora sim eu termino aquele livro infinito.

domingo, 11 de abril de 2010

Agora




Você pediu e eu vou escrever.

Não quero repetir palavras do passado, nem imaginar as que direi no futuro, e isso geralmente não é uma coisa que me ocorre. Escrevo sempre sobre o passado, ou sobre o medo do futuro, mas agora tenho que falar do meu presente, daquele segundo que no mesmo momento em que nasce entra no campo da memória.

O hoje não pode ser compreendido tão facilmente quando o ontem, e não se espera tanto quanto o amanha. Não posso contar a história desse minuto, como você me perguntou ontem como eu contaria essa história e eu respondi que não sei, pois ainda não chegou ao fim, e nós, claro, sempre contamos algo a partir do que já sabemos do fim.

Agora eu tenho medo. Medo do futuro, medo desse instante passar. O agora? Vai muito bem obrigada.
O agora é expectativa, é estudo, felicidade, noites em claro, passeio nas ruas, beijos na tarde de domingo...
O agora é aflição, é uma falta de entendimento do que está acontecendo, no meu corpo, na minha mente, nas minhas ideias pressupostas.
É gosto em ouvir alguma música, é um cantarolar de coisas bestas, é um Coldplay eterno no mesmo ônibus cada dia.
É cheiro no travesseiro, toque da mão, cobertor e vento frio.
É trabalho, desespero, vontade de desistir e encantamento.
É segredo, é mistério, é cochicho ao pé da orelha.

O agora é só o agora, é a insônia com sono que sinto. É a confusão da minha cabeça, a falta de um corpo quente na cama, a mesma na qual dormi sozinha por tanto tempo e depois desses dias não suporto mais.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Na estrada



Segui outra bifurcação da estrada de tijolinhos. Essa estrada de agora é meio cinza, mais perigosa, mas sem dúvida mais divertida.

Como a vida aqui só começa depois do carnaval, acho que ainda estou sentada num dos banquinhos da estrada esperando o alarme apitar pra começar a andar, ou correr.

O engraçado é que nessa nova cama eu não me sinto sozinha, e nem perdida, eu me sinto em casa. É exatamente o que me dá medo, saber que aqui é o meu lugar, e se nada der certo no final? E se no final da estrada não houver outra curva, nem uma outra estrada, nem nada? Vou ter que começar a andar sem saber.

Falavam de um mundo lá fora, que eu ainda não tinha enfrentado, acho que a única coisa estranha nesse mundo aqui fora é que não sei até onde vai estrada, em quanto tempo ela me levará a outra.

O que sei até agora é que tudo nessa estrada é exatamente como eu queria que fosse, não paro de pensar na sorte que tenho em tudo isso. Mas de certa forma que trilhou o caminho até chegar aqui fui eu, e como diria um poeta espanhol “El camino se hace al andar”.

As vezes eu fico olhando para trás, procurando os outros, que seguiram alguma outra estrada, e não consigo deixar de pensar onde é que a minha se cruza com a deles, eu espero que logo, e que alguns poucos sentem comigo num banco, por pouco tempo, pra tomar uma Brahma ou fumar um palheiro.

É, o que eu vejo agora é uma reta, meio infinita, mas que abre um espaço enorme só pra mim. A estrada que me quer, tanto quanto eu a quero.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Minha hipocrisia




Escrevo nessa noite no escuro, enxergo o mesmo que eu vejo do meu futuro, nada muito claro, incertezas do caminho. Como minha função social sem dúvida é encarar de peito aberto o passado e escrever sobre ele, aqui vai outra postagem sentimental. Além dos motivos óbvios para escrever aqui, descobri que algumas pessoas acompanham toda a merda que eu escrevo, embora tudo seja sobre a minha vida mesmo, que não tem nada de tão empolgante. Enfim...
Ontem uma amiga triste, e um pouco bêbada, me dizia que ninguém nunca tinha se apaixonado por ela. Acho que isso é um pouco normal, já que muitos homens da nossa era perderam a sensibilidade. Mesmo assim, eu acredito que pior que não ter alguém que se apaixone por você, é não ter se apaixonado, não ter vivido toda essa besteira da juventude, não ter ficado suspirando pelos cantos e cantarolando aquelas músicas depressivas e românticas pelos cantos, isso sim é triste.
Outra amiga descobriu essa semana todos os porquês de seus medos de se apaixonar e mergulhar de cabeça na babaquice. Difícil. Assim mesmo, reticente, ela continua a se encantar pelas pessoas e de certa forma é fiel aos seus sentimentos, embora nunca se envolva de muito perto. Eu não consigo fazer uma análise disso, nem sequer imaginar como seria, pois eu, bem pelo contrário, praticamente entro de finca nas minhas paixões, mesmo que a minha credibilidade nelas seja hipócrita.
Hoje, aqui nesse colchão na sala, fiquei pensando sobre os dois casos. Às vezes eu praguejo a “raça” masculina, os chamo de insensíveis, frios, digo que não sentem nada. Quando na verdade eu não tenho nenhuma razão pra acreditar nisso. Talvez a insensibilidade esteja em mim, mesmo indo fundo nas minhas paixões, meu cinismo consegue ser muito maior. Tenho que dizer que já fui alvo de algumas paixões, algumas concretas, outras não, mas o fato é que eu não soube sentir tudo isso no momento certo. Sobre um dos primeiros pelos quais me apaixonei, que depois de algum tempo descobriu um sentimento por mim bem maior do que eu poderia suportar, eu acabei falhando, por opção. Enquanto ele me escrevia dos seus pensamentos sempre em mim, eu me lembrava dos rostos das festas, dos outros desejos, pensava apenas no meu próprio prazer. Quando ele chegou na minha porta com uma flor e um poema, eu simplesmente disse que não sentia mais nada. Fiquei pensando se eu realmente tinha me apaixonado de verdade, cheguei a conclusão que dos dois anos, 3 meses eu fui apaixonada, até que ele sentisse mais que eu, então acabou.
Logo depois, houve outro caso onde faltou sincronia. Enquanto ele me escrevia coisas lindas, eu estava pelas praias de Guarujá andando com um certo surfista. Pois é, eu realmente não presto. E depois, passei longos meses com aquele moreno na cabeça, uma fascinação que invadiu cada poro da minha pele, acho que o motivo foi físico, mas foi a primeira vez que isso aconteceu comigo.
Depois disso, deixei que se apaixonassem, enquanto eu permaneço apaixonada por 2 meses. Não sei o que dizer, mas hoje à noite eu realmente me senti mal com tudo que tenho feito. Para além da paixão, existe alguém a milhares de quilômetros que realmente gosta de mim. Mais do que qualquer um dos que me escreveram, fizeram poemas, ou tocaram o interfone de madrugada. Não acho que seja amor, mas ele seria capaz de estar aqui amanha se eu pedisse, de me trazer qualquer coisa no mundo que eu queira, só pra me ver sorrir. Mesmo discordando, aceita as minhas idéias, e está longe de achar que sou perfeita. Cada palavra que ele me diz só faz piorar as coisas, pois enquanto ele se preocupa todos os dias comigo, eu estou pela rua, vivendo desde março a loucura de estar no último ano, e a felicidade de viver no Brasil. Enquanto ele me manda cartas, eu preservo minhas paixões do passado, me iludindo com possibilidades.
Descobri no final das contas que esse é pior dos casos. Desculpem-me as outras, mas ganhei o campeonato! Já se apaixonaram por mim, já ouvi todo o tipo de declarações, e eu realmente me apaixono e vou fundo. Mas eu sou hipócrita, infiel, e respeito apenas as normas do meu próprio corpo, excedo o limite. Posso não mentir, mas eu omito, eles não sabem da metade das histórias, nem ninguém sabe.